Cidadela no café da manhã

Agosto 6, 2008 por miotti

Deixo aqui um texto nem tão velho mais que evoca velhos tempos. Tempos de trabalho e muita indignação, tempos calorosos e mais honestos beatnickamente…sem pretensões!

O vazio da ponte pela manhã. Só o ferro gelado da Olivetti Lettera pode aconchegar os dedos. O dia nasce ensolarado. Raiva e preocupação. Nada parece mudar ou ser tão bom sob a pena de horários à cumprir. Chateação de programar o improgramável. Vou dizer à minha cueca e ao meu par de meias brancas: Não irei abandona-los, nunca! Iremos juntos ao escritório! Aliás, fiz isso desde sempre, desde que comecei no escritório. As únicas testemunhas: a cueca e o par de meias brancas.

Sol, sol e sol. Eu queria poder dizer coisas, como: andar pelas ruas de L.A; sentindo o frio de New York; beber nos becos de Sevilha; se não, ganhar na loto em Brasília; curtir cabana em Roraima – índia e mel escorrendo cachoeira-, dançar lambada em Petrolina, ou pegar gripe em São Paulo. Mas, mas não. Vivo noutro lugar, um lugar pequeno. Lugarejo, acho que é esse. Escondido em mãos de raios quentes, que é pra caber fácil à sombra; aqui as almas cantam. E há a solidão de desesperados que comem terra seca porque a língua é áspera, como em muitos lugares. Caminho entre esquinas feitas de língua, diz-que-me-diz-que. Esbarro em rabos oferecidos que não têm a menor dignidade; topo em corpos duros, cheios de raiva, querendo provar-me o asco da masculinidade, isso que chamam de força, macheza, sei lá. Às vezes, fico maluco por não querer me afundar nisso aí, que penso em distribuir marteladas ao maior número de dentes possíveis. Indeterminados que se acham orientados, eles me arrancam maldições em vez daquele velho sorriso de quem não liga pra coisa, mesmo sabendo o que acontece. É horrível.

Eu busco alguma dignidade, alguma transparência nos atos, sim! Por mais confuso que esse mundo pareça, eu sempre quero um abraço honesto, um sorriso claro, uns olhos que alcancem o fundo da alma. Se às vezes me chateio com o que vivo, arrisco dizer que em todo lugar é assim, e com muita gente também, mas, a sina é mesmo buscar algo além.

Sorrindo de canto, digo: o homem não cairá sem ser cantado, nem que seja à seu próprio fôlego baixo.

 

Bom…

Capuccino, gelo, leite e liquidificador.

Maionese, pão de leite.

Toalha na mesa.

Já deu a hora de ir pro trabalho.

 

Kaio Miotti.

O silêncio e a biblioteca

Agosto 5, 2008 por miotti

            A influência interminável dos livros que lemos, dos discos que ouvimos, dos botecos interestelares que já pousamos com o nosso espírito fervilhante; os nossos cinco sentidos recriadas em nove ou dez circunstâncias, abstratas ou não; o pulo do sapo no momento do trago; o trago no momento do gozo; a evolução e o instinto naturais do homem em seu caminho; o caminho e seus andarilhos correndo por sinapses poderosas; o desvio da cachoeira; o jardim sensual dos sonhos; o galo incandescente na torre da madrugada; e os lampiões, as víboras, as peçonhas, os olhos de cristais, os nevoeiros e seus chapéus; a marquise e os pichadores; as terras, as sesmarias, os retirantes do coração salgado de uma nação; e a nação com ou sem seus propósitos; propósitos com ou sem propósitos; a lua cheia do meio dia; a noite no peito dum filho da revolução; o cinzeiro e o fundo de bitucas amassadas ao lado de uma conversa, ou em frente à maquina de escrever; as pajelanças mal-comidas de uma verborréia cristã-fã-de-onde-não-sei-o-quê; os paralelepípedos vertiginosos da rua da quinta série; os odores celestiais do vinho, da cevada, das ervas e dos hormônios; os fluidos, a gesticulação; o curso natural das artérias, as brancas e as azuis; as estrelas que não conhecemos; o espaço que não conhecemos; o resto que achamos conhecer; o verbo achar; o procurar; buscar, buscar e buscar; o desconcerto duma viva alma com predileções à nostalgia; o escuro infinito; o silêncio e a biblioteca……….Há coisas que escapam antes de sabermos que há coisas…..dormir e acordar, sem final, da manhã à oração….Todas essas coisas! Todas essas coisas! Todas essas coisas!

            O pó, uma sobrevivência

            Só restam no final

            As reticências

            Senhas