Arquivo da categoria ‘minha tinta’

anel de couro

Outubro 7, 2008

 

 

Agora é tudo obrigação. Ai que dói! Perdeu-se a graça no gozo, perdeu-se toda invenção. “Só desilusão.” Chato. Só lamúrias, lamurías. Chego ao Bukowski dos meus pensamentos perguntando o que será que tem no meio dessas pernas, de tantas pernas. Não dá espaço, diz que não compensa “o casamento, as amigações…pelo que a mulher exige em troca.”

ah desalento, tanto adjetivo e nenhum me serve quando se trata da minha menina. qualquer menina, qualquer minuto a gente se tolera. No copo no canto, na porta da esquina cada uma que sorri, uma bunda é maravilha! (AI!) Adeus! Me vou querida!

O inferno é que a gente queria…só ia, ia.

 

E foi indo que a gente num tem mais dois lados. tu sem eu. O soco perdido no ar faz cair por terra – Aleluia – a paz maçante que existia.

 

Puta!

É bonita, sedosa. é! Tem colo, tem suor, tem madrugada.

Mas querida…não assopra!

 

uns cacos, umas lembranças

Setembro 8, 2008

 

As meninas saltam

e correm risos

Voam borboletas nuas.

 

 

Um hai-kai excitado às 3h da madrugada num motel de 5ª, foi só o que eu consegui escrever durante a algazarra toda que foi com aquelas malucas bêbadas e nuas correndo pelo quarto. Eu tinha que entregar uma reportagem sobre a nova boate da cidade no jornal até as nove da manhã dum sábado, e ainda não havia escrito nem uma linha. Estava um pouco desesperado e com medo do chefe me dar as contas no dia seguinte, mas confesso, estava era mais bêbado e feliz com aquelas meninas brincando comigo como se eu fosse padrinho delas do que preocupado com o emprego.  Poxa, eu tinha dinheiro e banquei nossa balada a noite toda, eu sozinho com quatro meninas crescidinhas. Foi a maluquice mais maravilhosa que eu fiz, meu caro! O medo de perder o emprego logo se foi, e a noite realmente era uma criança. Tanto é que uma delas me ligou ontem dizendo que achava estar grávida e o pai era eu. O que? Já sou vacinado menina, nessa você não me pega! Dê o fora! O telefone ficou mudo, e eu fiquei olhando pra mesinha de centro com o copo de uísque e um cigarro aceso. Voltei a beber e pensar se abria ou não a carta que o chefe me mandou há dois dias…

 

 

 

Tarde Menina

Agosto 25, 2008

 

Canseira gostosa. O vento fresco, o sol perturbado na vitrine dos carros que vão passando. Centro da cidade. Vontade findada na infância…

Já estavam recolhendo os guarda-sóis das mesas em frente ao bar. Cobria-me com tranqüilidade a sombra fria dos edifícios… e a mania de achar que estamos sempre juntos…

Manoel passou correndo em frente ao boteco. O homem gritou num estampido:

“Ce viu? Ce viu?”

“O quê Manoel?”

“Ce viu? Tão prendendo agora aquele traficante. É, aquele dono de boate que mora nesse prédio ali ó!”- afobado, apontava o dedo pro quarteirão do lado.

“Ce num acredita velho, o cara tava com muita coisa entende, muita mercadoria!”

 “Pô, num enche Manoel!”

“Num enche você! Eles tão prendendo papai das mocinhas novas da cidade, entende? O cachorro louco da área!”

“Já disse, não me interessa Manelzin!”

“Ô cara chato!”

 “Santo homem! Vai lá vê, vai! Some daqui!”

 

Maluquice. Uma pomba acabava de cortar o ar, lentíssima, até aterrissar ao lado da mesa em que estava. Manoel já tinha ido, acompanhar os últimos acontecimentos. Olhei pra pomba, estava bicando umas pedras, sem esforço. Ciscava dum lado. A cabeça sempre pra trás e pra frente, pra trás e pra frente. Pezinhos pro outro lado. Pombinha! Negra, cinza, marrom e listra branca no pescoço. A ave que é pulguenta para alguns daqui; singela para os de lá, e até companheira dos velhos de praça… Pomba, de minha companhia nesse botequim, Saúde!, pela cerveja, pela saudade, pelos sóis de construções, pela pressa, e pelo nascimento que não foi em vão!

            Pomba voou, me dizendo antes de partir:

            “paciência menino, paciência com as coisas da vida.”

 

 

Por que alguém num me aparece

assim,

vestida de branco  

nessa tarde vazia?

 

Que me olhe nos olhos,

que me peça um sorriso

não me negue seu abraço

e eu fique todo coração.

 

Aí, a gente sai livre,

no vento do dia,

no caminho de casa,

nos deitar.

Amar.

seremos até felizes,

de vadiagem e carona

Numa  tarde tranqüila.

 

 

 

Kaio Miotti R.

Eu pensava nas rosas

Agosto 22, 2008

Apontada ao céu entre punhais e curtas lanças, sangra a coroa que a terra lhe deu. E quando úmidas preces ecoam aos ventos tocando o calcinado berço de nós homens, são rosas apenas, rosas.

 

Maria é Rosa

Sua prima Rosa Maria

 

Pra despedida

Velas e rosas

À quem já não cabe nesta vida

 

No paletó, aceso coração

Mas, branco paletó,

No cantar dos becos a tal sina do malandro

 

Para avós e netos

Deve estar nos canteiros da avenida

Pos é domingo, algodão-doce e tubaína

 

Deve partir num arranjo

Para fora da solidão

 

Iluminar um novo rosto

Cadenciar uma serenata

E, em janela de mocinhas

Estampar umas toalhas

 

Enfim,

Deve surgir na luz púrpura

Pra que tecidos não abafem

Gemidos quentes pelas esquinas.

 

Eu pensava nas rosas, Maria…

 

 

Kaio Miotti R.

Alguma dúvida ou solução?

Agosto 15, 2008

 

            Eu pensei em escrever sobre jovens, mas logo desisti. Pois, escrever o quê? Que os jovens mudarão os rumos do país? Que eles são cheios de vida, de força, de paixões e devaneios? Ou então, dizer que estão todos vendidos ao grande poder monetário e que estão todos corrompidos pelo modo de vida burguês? Não! Chega de chatices! Basta de pensamentos totalitários e de umbigos! Eu, eu quero lhes dar algo a mais! Algo meio-amargo que possam digerir vagarosamente; algo como tapa e sorriso, uma obsessão disfarçada! Algo como o que senti quando li um papel amassado que encontrei no meio da rua. Leiam(!):

 

Sala de espera, Clínica Psicológica Integrados

15:47, 23/04/99

 

            Há espumas escorrendo pelo azul nítido do céu. Ao pé da janela há seis vasinhos. Não há quatro esparramados, nem cinco, nem sete apertados, há seis vasos uniformemente dispostos. Três com flores desabrochadas, três sem flores, apenas folhas aveludadas. Há quatro divisões na janela; duas cortadas por persianas; duas claras, como olhos por sobre as montanhas do sétimo andar. O pensamento corre longe sobre a linha do horizonte; às vezes pára e se demora sobre a mesa marrom do centro da sala, sobre o pote transparente com balas. Há dois sofás, quatro almofadas; uma pilha de revistas, outra de gibis sobre uma mesinha escura no canto da sala. Que azul claro, limpo e nítido do céu, às quatro da tarde! Que nuvens tão brancas, que paredes também tão azuis e limpas! Tudo tão claro sob o olhar de quem espera a doutora numa clínica psicoterapeutica…

            Chegou mais um, mais um paciente. Agora são dois nesta sala de espera de clínica psicológica. Enquanto isso a anatomia me torce a boca e enfia meus olhos pelo coração através da janela; surge o mundo que quero estar, repleto de possibilidades. Fazemos parte de algo, eu sei. Uma terceira pessoa, mulher, completa rapidamente a sala: “Guardem este salmo para vocês, em nome de Jesus!” Saiu rapidamente como entrou, levando apenas três balas e dois obrigados. Penso se isso foi gentileza ou desespero, mas, de qualquer forma, não me interessa, eu não a conheço. Também não conheço este rapaz ao lado, de terno e gravata, que acaba de me dizer que chegara uma hora adiantado. Que pena, que pressa! Não me interessa. Bom, também não me conheço, mas já é quatro e quinze, a doutora vai chamar e então direi bom dia ou boa tarde, darei um sorriso um beijo um abraço, e começaremos a nossa conversa afim de que me salve de mim mesmo. Talvez eu quisesse escrever mais alguma coisa…

            -O próximo!

           

 

 

 

 

 

Kaio Miotti.

Assalto na 15

Agosto 14, 2008

Um assassinato. Um assassinato! Foi o que disseram sobre o corpo estendido na calçada. Caíra do oitavo andar. Estilhaços de vidro e ferro decoravam o corpo lavado de sangue. A nuca arrebentada no chão, tornou vermelho os seus cabelos, que ainda sustentavam nas pontas o amarelo brilhante de outrora. Ainda olhava fixa pra janela de onde caíra, como se tivesse deixado algo lá, como se tivesse esperança de voltar àquele apartamento.

Os curiosos, famílias inteiras, debruçavam-se sobre o fim daquela moça. Ainda não haviam bombeiros ou polícia mas, uma pequena multidão abarcava o desfecho da menina. Murmuravam. Especulavam. “era amante?” “foi traída?” “suicidou-se” “não, assassinato, disseram, assassinato.” “nossa.” “terrível.” E uma onda de pragas – como um enxame de abelhas, mas não de abelhas, de bocas, bocas cheias de dentes, lotadas de língua – profanavam o silêncio santo do coração daquela mulher. A pobre, singela, impotente na brancura de sua pele. Alva, tão bela que banhava-se apenas à luz da lua. Contornada quase por inteira por um véu vermelho de morte. Exposta sobre o mosaico da calçada, à meia luz de mercúrio. Cintilante, uma dobradura laminada de ouro. Um altar na calçada. Uma santa. Nua.

“Foi injusto! Foi injusto! Foi injusto, meu amor!” – da janela quebrada do edifício, um homem chora aos berros, desesperadamente, apoiado em forma de cruz – “Multidão nenhuma estava entre nós! Você é minha! Só minha!”

“a tua carne ainda cheira no meu corpo!” – deu o último grito, como um suspiro.

 

Nada mais que isso. O meu papel já estava cumprido. Um jornalista de  quinta, num jornal de sexta, tudo bem. Mas não seria capaz de tanta covardia. Fazer palco da tragédia, da infelicidade, do ódio, do desprezo… Querida Ruthi, já não via seu encanto há muito tempo. Desde aqueles poucos dias… a felicidade pouca que tivemos na paixão e nos jogos, na tua cama e nos meus caprichos pra você. Que liberdade não curtimos, sozinhos  comungando gritos,  paixão sem redes ou valas. Dez ou doze anos não me fizeram te esquecer. Doze anos, e você aqui, assim. Se eu tivesse ligado, ou não sei… ficado, talvez.

 

O telefone toca: “PEREIRA, ASSALTO NA 15, ASSALTO NA 15, COBRE LÁ!”

 

 

 

 

Kaio Miotti

Cidadela no café da manhã

Agosto 6, 2008

Deixo aqui um texto nem tão velho mais que evoca velhos tempos. Tempos de trabalho e muita indignação, tempos calorosos e mais honestos beatnickamente…sem pretensões!

O vazio da ponte pela manhã. Só o ferro gelado da Olivetti Lettera pode aconchegar os dedos. O dia nasce ensolarado. Raiva e preocupação. Nada parece mudar ou ser tão bom sob a pena de horários à cumprir. Chateação de programar o improgramável. Vou dizer à minha cueca e ao meu par de meias brancas: Não irei abandona-los, nunca! Iremos juntos ao escritório! Aliás, fiz isso desde sempre, desde que comecei no escritório. As únicas testemunhas: a cueca e o par de meias brancas.

Sol, sol e sol. Eu queria poder dizer coisas, como: andar pelas ruas de L.A; sentindo o frio de New York; beber nos becos de Sevilha; se não, ganhar na loto em Brasília; curtir cabana em Roraima – índia e mel escorrendo cachoeira-, dançar lambada em Petrolina, ou pegar gripe em São Paulo. Mas, mas não. Vivo noutro lugar, um lugar pequeno. Lugarejo, acho que é esse. Escondido em mãos de raios quentes, que é pra caber fácil à sombra; aqui as almas cantam. E há a solidão de desesperados que comem terra seca porque a língua é áspera, como em muitos lugares. Caminho entre esquinas feitas de língua, diz-que-me-diz-que. Esbarro em rabos oferecidos que não têm a menor dignidade; topo em corpos duros, cheios de raiva, querendo provar-me o asco da masculinidade, isso que chamam de força, macheza, sei lá. Às vezes, fico maluco por não querer me afundar nisso aí, que penso em distribuir marteladas ao maior número de dentes possíveis. Indeterminados que se acham orientados, eles me arrancam maldições em vez daquele velho sorriso de quem não liga pra coisa, mesmo sabendo o que acontece. É horrível.

Eu busco alguma dignidade, alguma transparência nos atos, sim! Por mais confuso que esse mundo pareça, eu sempre quero um abraço honesto, um sorriso claro, uns olhos que alcancem o fundo da alma. Se às vezes me chateio com o que vivo, arrisco dizer que em todo lugar é assim, e com muita gente também, mas, a sina é mesmo buscar algo além.

Sorrindo de canto, digo: o homem não cairá sem ser cantado, nem que seja à seu próprio fôlego baixo.

 

Bom…

Capuccino, gelo, leite e liquidificador.

Maionese, pão de leite.

Toalha na mesa.

Já deu a hora de ir pro trabalho.

 

Kaio Miotti.

O silêncio e a biblioteca

Agosto 5, 2008

            A influência interminável dos livros que lemos, dos discos que ouvimos, dos botecos interestelares que já pousamos com o nosso espírito fervilhante; os nossos cinco sentidos recriadas em nove ou dez circunstâncias, abstratas ou não; o pulo do sapo no momento do trago; o trago no momento do gozo; a evolução e o instinto naturais do homem em seu caminho; o caminho e seus andarilhos correndo por sinapses poderosas; o desvio da cachoeira; o jardim sensual dos sonhos; o galo incandescente na torre da madrugada; e os lampiões, as víboras, as peçonhas, os olhos de cristais, os nevoeiros e seus chapéus; a marquise e os pichadores; as terras, as sesmarias, os retirantes do coração salgado de uma nação; e a nação com ou sem seus propósitos; propósitos com ou sem propósitos; a lua cheia do meio dia; a noite no peito dum filho da revolução; o cinzeiro e o fundo de bitucas amassadas ao lado de uma conversa, ou em frente à maquina de escrever; as pajelanças mal-comidas de uma verborréia cristã-fã-de-onde-não-sei-o-quê; os paralelepípedos vertiginosos da rua da quinta série; os odores celestiais do vinho, da cevada, das ervas e dos hormônios; os fluidos, a gesticulação; o curso natural das artérias, as brancas e as azuis; as estrelas que não conhecemos; o espaço que não conhecemos; o resto que achamos conhecer; o verbo achar; o procurar; buscar, buscar e buscar; o desconcerto duma viva alma com predileções à nostalgia; o escuro infinito; o silêncio e a biblioteca……….Há coisas que escapam antes de sabermos que há coisas…..dormir e acordar, sem final, da manhã à oração….Todas essas coisas! Todas essas coisas! Todas essas coisas!

            O pó, uma sobrevivência

            Só restam no final

            As reticências

            Senhas