Alguma dúvida ou solução?

By miotti

 

            Eu pensei em escrever sobre jovens, mas logo desisti. Pois, escrever o quê? Que os jovens mudarão os rumos do país? Que eles são cheios de vida, de força, de paixões e devaneios? Ou então, dizer que estão todos vendidos ao grande poder monetário e que estão todos corrompidos pelo modo de vida burguês? Não! Chega de chatices! Basta de pensamentos totalitários e de umbigos! Eu, eu quero lhes dar algo a mais! Algo meio-amargo que possam digerir vagarosamente; algo como tapa e sorriso, uma obsessão disfarçada! Algo como o que senti quando li um papel amassado que encontrei no meio da rua. Leiam(!):

 

Sala de espera, Clínica Psicológica Integrados

15:47, 23/04/99

 

            Há espumas escorrendo pelo azul nítido do céu. Ao pé da janela há seis vasinhos. Não há quatro esparramados, nem cinco, nem sete apertados, há seis vasos uniformemente dispostos. Três com flores desabrochadas, três sem flores, apenas folhas aveludadas. Há quatro divisões na janela; duas cortadas por persianas; duas claras, como olhos por sobre as montanhas do sétimo andar. O pensamento corre longe sobre a linha do horizonte; às vezes pára e se demora sobre a mesa marrom do centro da sala, sobre o pote transparente com balas. Há dois sofás, quatro almofadas; uma pilha de revistas, outra de gibis sobre uma mesinha escura no canto da sala. Que azul claro, limpo e nítido do céu, às quatro da tarde! Que nuvens tão brancas, que paredes também tão azuis e limpas! Tudo tão claro sob o olhar de quem espera a doutora numa clínica psicoterapeutica…

            Chegou mais um, mais um paciente. Agora são dois nesta sala de espera de clínica psicológica. Enquanto isso a anatomia me torce a boca e enfia meus olhos pelo coração através da janela; surge o mundo que quero estar, repleto de possibilidades. Fazemos parte de algo, eu sei. Uma terceira pessoa, mulher, completa rapidamente a sala: “Guardem este salmo para vocês, em nome de Jesus!” Saiu rapidamente como entrou, levando apenas três balas e dois obrigados. Penso se isso foi gentileza ou desespero, mas, de qualquer forma, não me interessa, eu não a conheço. Também não conheço este rapaz ao lado, de terno e gravata, que acaba de me dizer que chegara uma hora adiantado. Que pena, que pressa! Não me interessa. Bom, também não me conheço, mas já é quatro e quinze, a doutora vai chamar e então direi bom dia ou boa tarde, darei um sorriso um beijo um abraço, e começaremos a nossa conversa afim de que me salve de mim mesmo. Talvez eu quisesse escrever mais alguma coisa…

            -O próximo!

           

 

 

 

 

 

Kaio Miotti.

2 Respostas para “Alguma dúvida ou solução?”

  1. Anne Disse:

    Ahhhh mais é um melhor que o outro…eu lembro quando você escreveu esse!!!
    Parabéns e Parabéns amor!!!

    Bjuuusss!!!
    ;******

  2. Nevilton Disse:

    hey, Kaio!!! muito bom seu texto!!! parabéns!!!

    e olha só… linkamos seu blog lá no Culturanja também!!! grande abraço! tudo de bom! até mais!

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